segunda-feira, 23 de maio de 2011

Crônica e Poesia de Vilma Cunha

Oh, Minas Gerais! Quem te conhece, não esquece jamais!..

Acadêmica VILMA CUNHA

{O hino mineiro tão bonito e cantado, letra de José Duduca Morais, e melodia adaptada da valsa italiana Viene sul Mare, não é considerado oficial. Uma judiação}...

Há muito, sonhava conhecer Diamantina. Terezinha, dama das excursões religiosas, estreou um projeto com roteiro novo,  convidou uma turma pra lá de especial, comandou o rebanho cor-de-rosa na competência de costume, e quem foi, regalou-se com beleza e cultura por 4 dias na terra do ilustre JK. Com direito a conhecer o Serro das Minas Gerais.

Sede de uma das 4 primeiras comarcas da Capitania das Minas, a antiga Vila do Príncipe do Serro Frio, hoje, cidade do Serro, ainda guarda as características das vilas setecentistas mineiras, o que lhe valeu ser o primeiro município brasileiro a ter seu conjunto arquitetônico e urbanístico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em abril de 1938. Azul e branca, marca registrada  dos sobrados e casarões do nosso estado, a cidade exibe mineiridade, com cultura, beleza e filhos ilustres.  "É do Serro que sei que Minas em mim Vive ".(FrançaJúnior).

A descoberta de ricas jazidas de ouro próximas à cidade do Serro, entre os rios Grande e Piruruca, atraiu os primeiros exploradores à região da atual Diamantina. Em 1713, foi fundado o Arraial do Tijuco (que em tupi, significa lama). O grande impulso para o crescimento urbano e econômico do arraial foi a descoberta de jazidas de diamante por volta de 1720. Bernardo da Fonseca Lobo, reconhecido como o primeiro a encontrar a pedra, levou em 1726 alguns diamantes ao governador da província, sediada em Ouro Preto , e a notícia logo chegou à Coroa Portuguesa. Em 1729, o rei D. João V cancelou todas as concessões e instituiu o monopólio particular na extração da pedra, que até então vinha sendo explorada livremente. Foi fundado o Distrito Diamantino, com sede no Tijuco e subordinado à comarca do Serro Frio, para oficializar o controle da extração. A partir da segunda metade do século XIX, Diamantina inicia um período de decadência econômica com o esgotamento das jazidas. Intensificou-se então a agricultura de subsistência apesar do relevo pedregoso, e no início do século XX, a indústria têxtil surgiu como nova opção econômica.

A cidade calçada com pedras pelos escravos, sobe e desce ladeiras ostentando sobrados e casarões imponentes, entregando a belíssima origem portuguesa. Ainda que as ruas e becos estreitos do centro tenham também o traçado irregular que caracteriza outras cidades da época, Diamantina apresenta algumas características só dela. Há poucas praças e não se vê grandes prédios públicos. A arquitetura das igrejas também é diferente de outras cidades históricas. O estilo é simples e elegante. 
Monumentos Civis: Mercado dos Tropeiros; Casa de Juscelino Kubitschek; Casa da Glória e Passadiço; Casa de Chica da Silva; Casa do Padre Rolim (Museu do Diamante); Casarão do Fórum; Casa do Muxarabiê; Rua do Burgalhau;Casa da Intendência (Prefeitura)
Monumentos Religiosos: Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos; Igreja São Francisco de Assis; Igreja Nossa Senhora do Carmo; Catedral Metropolitana de Santo Antônio; Igreja Nosso Senhor do Bonfim; Igreja Nossa Senhora das Mercês; Igreja da Luz; Capela Imperial do Amparo; Basílica do Sagrado Coração de Jesus.

Diamantina é pluricultural. As artes se dão as mãos e dançam a ciranda da rica história. Diamantina canta nas ruas, nas escolas, em saraus nas igrejas centenárias, nas serestas, toca nas Vesperatas famosas, não nega o berço que embalou o belo. Zela pela memória preciosa.

 Arte Miúda, Curso Livre de Arte Integrada, fundado em 1988 por Soraya Araújo Ferreira Alcântara e Maria Eunice Ribeiro Lacerda, tem como objetivo despertar o interesse e a sensibilidade da criança (a partir dos 03 anos de idade) e do adolescente pela arte, por meio da integração  das artes (plásticas, cênicas, musicais e dança), em ambiente propício ao desenvolvimento da criatividade e da descoberta do talento artístico. A Escola desenvolve diversos projetos, com destaque para o resgate e a divulgação da cultura de Diamantina e região. O Projeto “Memória Musical” cultiva e divulga a tradição seresteira de Diamantina com o Grupo de Seresta Infanto-Juvenil que se apresenta para turistas e nativos encantados e também em diversas cidades brasileiras Vimos um espetáculo grandioso.
Semana que vem vou contar!






Amor de Maio
Vilma Cunha
 
O céu chorando em maio
Ensopando a noite lá fora
Pena, meu Pai qual seria?

Chuva alegre meu poeta
De banhar as laranjeiras
Seus botões com poesia

Pai milagreiro das Bodas
Com os cântaros de amor
Sacramentando harmonia 

Poeta, aroma o teu verso
No doce encanto de maio
Hás de incensar a alegria

Um Verdadeiro Humanista

Um verdadeiro humanista

Cesar Vanucci *

“Quem não gosta do Brasil não me interessa.”
(Gilberto Amado)

Tantas coisas ditas e tantas ainda a dizer sobre JA. Reservo-me o direito de, pra frente, voltar a registrar, atos, fatos, ditos e feitos que possam ser incorporados à saga desse personagem fascinante.

O que desejo, por agora, no arremate desta sequencia de artigos, em que me esforcei por pincelar algumas facetas de sua cintilante trajetória, é sublinhar o caráter humanístico que norteou as fecundas ações nesta sua peregrinação pela pátria terrena. Já foi falado, mas não fica demais repetir (a repetição, como atestava Napoleão, é sempre a melhor retórica): o legado deixado por Alencar servirá, com certeza, de inspiração pra muita gente.

Do povoado de Itamuri ao Palácio do Jaburu, chão a perder de vista na extenuante caminhada, o cidadão de infância humilde daquela paisagem roceira, que veio a exercer nos cenários majestosos e refinados do poder funções que tão forte influência tiveram nos destinos de seus compatriotas, soube conservar íntegros os valores e crenças adquiridos no aconchego familiar. Manteve-se fiel às raízes. Os aconselhamentos paternos valeram-lhe de farol na caminhada. “O importante na vida, meu filho, é poder voltar”, foi o que lhe disse o pai, Antônio, no dia em que o abençoou em sua partida rumo a centro maior na busca de “lugar ao sol.”

Alencar madrugou no trabalho, começando por tarefas bem modestas. À custa de invulgares talento e capacidade empreendedora, construiu, palmo a palmo, reluzente carreira. De balconista a pequeno comerciante. Na atividade industrial, despontada adiante, percorreu longo e árduo itinerário até chegar à posição de realce assumida no panorama empresarial.

A crença humanística impregnava seu comportamento. No trabalho, pontilhado de conquistas sociais enriquecedoras. No lar, construído com a ajuda inestimável e decisiva de dona Marisa, companheira resoluta, dama de acrisoladas virtudes, mulher forte na inteireza evangélica. Na vida pública inatacável, reconhecida na reverência das ruas, a partir, sobretudo, do momento em que galgou a Vice-Presidência e criou, com sua inteligência descortinadora, uma forma muito peculiar, descontraída, franca, bem humorada, de dialogar com a sociedade em torno de questões palpitantes. Na doença inclemente, em que tocou a todos com sua inabalável disposição de seguir em frente.

Alencar preencheu com atitudes e palavras, botando pra fora seu apego a valores humanísticos e espirituais que conferem dignidade à aventura humana, um espaço na paisagem política que é hoje percebido pelos seus patricios como uma referência de vida, valendo de exemplo e inspiração.

Foi um compatriota que soube olhar o Brasil, o jeito de ser de sua gente, com sentimento de brasilidade. Pensava como Gilberto Amado: “Quem não gosta do Brasil não me interessa.” Sentia-se em desagrado com essas pessoas que, contemplando nossa realidade, nossas lutas e conquistas, procedem como aqueles indivíduos mórbidos pela própria natureza que, diante da magnitude do mar, só têm palavras para o enjôo, conforme a anotação crítica de Louis Pauwells.

Deixei por último uma revelação danada de intrigante, de certo modo inédita, já que nunca registrada publicamente, envolvendo uma previsão feita por Neila Alckmin a este desajeitado escriba numa manhã nevoenta de fevereiro do ano de 1990. As circunstâncias que me colocaram frente a frente com a famosa sensitiva, de saudosa memória, em Conceição do Rio Verde, foram, pra dizer o mínimo, intrigantes. Deixo para outra ocasião essa parte do relato. O que desejo sublinhar é o seguinte: Neila antecipou, surpreendentemente, num papo com duração bastante extensa, que o dirigente maior da entidade em que eu trabalhava – a Fiemg – estava vocacionado a cumprir, num futuro próximo, uma missão de notável relevo na cena pública brasileira. Lembro-me de ter-lhe indagado, na ocasião, relutando, inconscientemente, de certa maneira, em acatar seu vaticínio, por que não dera certo a previsão que fizera acerca da eleição do Afif Domingos no pleito presidencial recém-findo. Ela não demonstrou melindrar-se com a pergunta. Limitou-se a explicar que fora mal interpretada no tocante ao fato, que rendeu, como é sabido, vasto comentário crítico na época.

Depois deste encontro, antes de sua partida, falei com Neila por mais três vezes. Todas por telefone. Ela sustentou, convictamente, o que havia dito acerca do futuro papel político de Alencar na história brasileira.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Artigo do Acadêmico César Vanucci

Cartas do médico Guimarães

 Por CÉSAR VANUCCI
“Uma pequena preciosidade.”
(José Dias Lara, escritor, estudioso da obra de Guimarães Rosa)


R
etorno a um personagem fascinante. Correspondência de um amigo traz Guimarães Rosa de volta a este espaço. Como devem se recordar os leitores, em três crônicas sucessivas – “Guimarães Rosa”, “Confissão de Guimarães” e “Acontecências paranormais” -, andei deitando falação acerca dos insuspeitados, singulares, e, como se viu depois, confessos dons de percepção extrasensorial do genial escritor. As considerações alinhadas se basearam num artigo, de 40 anos atrás, em que o próprio Guima narra suas incríveis experiências nessa enigmática seara. O artigo me foi encaminhado por um grande amigo, o escritor e historiador Luiz de Paula Ferreira, um dos maiores empresários do ramo têxtil da América Latina.

Das crônicas aqui estampadas tomou conhecimento o respeitado homem de letras José Dias Lara, ex-governador do Lions, educador emérito, membro da Academia Mineira de Leonismo, onde ocupa a cadeira que tem Guimarães Rosa como patrono. Estudioso das coisas ligadas ao encantador universo rosiano, Lara detém valiosas informações sobre a vida e a obra do autor de “Grande Sertão, Veredas”. Numa amável correspondência, registra sua surpresa diante do artigo de Guimarães: “O tal artigo, de 40 anos atrás – que desconhecia – talvez seja mais uma das excentricidades do velho Guima, que ele as tinha em bom número”. No desdobramento da mensagem, presenteia-me, conforme suas palavras, com “uma pequena preciosidade”.

Ouçamos de sua própria boca as explicações: “Sabe-se que Guimarães era de falar pouco e escrever muito, particularmente cartas: era um missivista de escol. E isto já fazia, bem antes de tornar-se o notável escritor que todos conhecemos. Ainda era o dr. João, médico em Itaguara, nos idos de 1932; são desse tempo as cartas de que lhe envio algumas cópias – uma pequena preciosidade – uma delas até com uma fórmula medicamentosa para manipular. Linguagem simples para seu povo muito simples. Eram os primeiros passos de um bom médico, que se fez grande nas letras nacionais.”

O destinatário de todas as cartas, redigidas pela ortografia da época, datadas de 1932, a caligrafia firme e desenvolta, é um senhor de nome Manoel, residente no Mambre, próximo a Itaguara, onde o médico Guimarães Rosa clinicava. Em tom assaz cordial, evidenciando o grau de amizade existente entre os dois, Rosa acompanha o tratamento de pessoa próxima ao companheiro Manoel. Indica procedimentos terapêuticos incluindo aí, até mesmo, receitas médicas caseiras, de uso corrente naqueles tempos. Abaixo a reprodução das duas primeiras cartas-receitas. As outras ficam para depois.
“Itaguara, 22 maio 932  Prezado Manoel,  Abraços, Seguem os apetrechos. Faça o serviço com jeito, e mande-me a ferramenta logo depois. Explique ao povo da casa o modo de usar os remédios.
Recomende quanto à hygiene. Mande fazer também uma lavagem intestinal. Será bom você mandar-me uma informaçãozinha por escripto. Recomendações aos seus. Abrace por mim o velho. Estou com saudade do agradável Mambre e, principalmente, dos seus bondosos moradores. Muito grato por todas as finezas; desculpe-me os incômodos. Do amigo   J. Guimarães Rosa”

“Prezado Manoel  Cumprimentos aos seus. Continue a mandar fazer as lavagens intestinaes, bem como as vaginaes. A doente deve tomar, na maior quantidade possível, chá de cabellos de milho adoçado. A alimentação deve ser reforçada, com prudência, porem. Um apertado abraço do amigo Guimarães Rosa.!




Receitas de Rosa





“... aplicar angús quentes no logar da dor.”
(Prescrição do dr. João Guimarães Rosa)

E

 sta crônica ocupa-se de textos inéditos de Guimarães Rosa datados de 1932. Não se trata, já vimos, de escritos literários, mas de mensagens coloquiais, em tom afetuoso, assinadas pelo médico dr. João Guimarães Rosa. Ele exercia a profissão em Itaguara, interior deste imenso país das Geraes. O destinatário, amigo dileto, era o fazendeiro Manoel Carvalho, chefe político conceituado na região. A fazenda Mambre, citada várias vezes nas correspondências, ficava localizada na divisa de Itaguara e Itatiaiuçu.

Em carta de 25 de maio de 32, Guima refere-se ao amigo como “um bom enfermeiro e um bom informador” e recomenda à paciente sob seus cuidados “lavagem intestinal” com “água fervida, ou cozimento de rosas”. Este o texto:
“Itaguara, 25 de maio de 932  Prezado Manoel, Um abraço apertado. Primeiramente, ardorosos parabens, pois você tem sido um bom enfermeiro e bom informador. Quanto à doente: Deve ir se alimentando com canjas, caldo de frango, mingáu de fubá com leite, café com leite, sopa de macarrão bem cozido, etc, porque a moléstia é demorada e a doente necessita de manter as forças. Mesmo sem appetite, deve insistir. Deve fazer nova lavagem intestinal, com litro de água fervida, ou cozimento de rosas. Vão novos papeis para lavagens vaginaes. A injecção não póde falhar nenhum dia  amanhã póde falhar a informação, só isso. Quando a febre estiver mais alta, a doente deverá tomar um banho morno de corpo todo, enxugando-se bem depois. Os remédios (poções) devem ser tomados sem interrupção, e, terminado o conteúdo dos vidros deve vir o portador para reformal-os. Continue: - Hygiene.... Hygiene.... si fôr possível. Abrace todos os seus em meu nome. Do amigo Guimarães Rosa.”
Na carta seguinte, 29 de maio, expressa muito carinho pelo pessoal da fazenda.

“Distinto Manoel, Gloria! Fico bem satisfeito de saber das melhoras apresentadas pela doente – melhoras devidas em parte aos cuidados enérgicos do amigo, que tem sabido informar-me magnificamente da marcha da moléstia. Si as dores nas pernas continuarem, veja si há alguma novidade no local dolorido (inchação branca e dura), pois pode tratar-se de uma phlebite puerperial. De qualquer maneira, caso a dôr continúe, a doente deverá manter-se em repouso rigorosissimo, podendo applicar angús quentes no logar da dor. No mais, continue, que está bem orientado. Distribua um punhado de abraços entre o pessoal do Mambre, sendo um abraço maior para o seu Chico e um outro para você. Até outra vez. Guimarães Rosa.”

Na missiva posterior (03.06.1932) Guimarães Rosa prescreve uma receita caseira, indicando os ingredientes da manipulação a ser feita.
“Prezadissimo Manoel  Cordiais cumprimentos. Seguem novos remédios para a enferma. É preciso que ella vá se alimentando bem, com as devidas cautelas, naturalmente, para que a causa não desande em vez de andar. Não deixe de mandar informações por mais uns três dias, principalmente temperatura e pulso. Mande fazer diariamente uma lavagem intestinal. E, fallo sem intuito de envaidecel-o, póde você estar certo de que a cura da doente deverá, em grande parte, ser agradecida ao enfermeiro. Pudesse eu ter sempre á mão um auxiliar assim! Quanto á crioula, si você quizer experimentar ainda, póde dar a ella: Uso interno Elatério  -  0,50 .....; Rhuibarbo preto  -  1,0 gr; Estr. de fel de boi  -  qsp para 20 pilulas. Dar 1 de 2/2 horas. Conjuntamente devem ser dadas umas 3 injecções de óleo camphorado. Provavelmente o resultado será bom. Até breve. Abraça por mim a todos os mambrenses, principalmente o velho. Do amigo Guimarães Rosa  Itaguara, 3 de junho de 932.”

Interessantíssima, sem dúvida, essa série de cartas-receitas que o professor José Dias Lara, estudioso da vida e obra de Guimarães Rosa, traz ao conhecimento dos leitores por intermédio deste seu admirador e amigo.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

domingo, 24 de abril de 2011

Posse da Acadêmica Hebe Rôla na AMULMIG

POSSE DA ACADÊMICA HEBE MARIA RÔLA SANTOS -
Vejam fotos e discurso de saudação.Notícia postada na página:



Acadêmica Andreia Donadon Leal - discurso de saudação

 Acadêmica Hebe Rôla - saudação ao patrono - José Severiano de Resende
Acadêmica Hebe Rôla recebe o Diploma da AMULMIG da Presidente em exercício, Conceição Parreiras Abritta

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Textos para publicação no blog da AMULMIG

Prezados Confrades da AMULMIG

Devido a inúmeros compromissos culturais, informo-lhes que os textos enviados para publicação neste blog, serão postados somente a cada 15 dias.

Grata pela compreensão.

Andreia Donadon Leal - membro efetivo da AMULMIG

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Dia Mundial do Livro

Dia Mundial do Livro 
Andreia Aparecida Silva Donadon Leal  
Abril é mês Mundial do Livro – produção material de bens imateriais do homem, ao longo da história. Primeiro de abril é dia da mentira. É costume de pessoas extrovertidas pregarem “alguma peça” nesse dia, falando mentiras para amigos, parentes ou conhecidos. E o que os livros têm a ver com a mentira? Provavelmente nada. Leitura ficcional ou não, seu valor é indiscutível para a humanização. O acesso igualitário aos bens culturais (populares e eruditos) é DIREITO de todos, mas, infelizmente, esse direito não é conhecido, nem requerido pelo povo. E a cultura? O que é cultura? Obviamente, o termo é amplo demais para discussões específicas neste texto.  Cultura, de forma geral, é toda manifestação resultante do gênero humano. É ela que permite avançarmos em todas as áreas. Dessa forma, poderíamos concluir que a função da Cultura é a de tornar dinâmica a vida em sociedade. Sim, esse é o sentido lato da palavra cultura – tão importante e emergencial como a Alta Educação ou Excelência Educacional. O princípio básico cultural seria esse, se tivéssemos gestores culturais, especialmente nas administrações públicas, que promovessem o diálogo da cultura popular com a erudita. O livro, por exemplo, entra como protagonista e tábua de salvação ou remédio eficaz contra o empobrecimento cultural. Literatura, livro e leitura são investimentos culturais promissores de um país.
O estudioso Antonio Cândido defende o “Direito à Literatura” como direito humano, pois se algo é indispensável para nós, deve ser também indispensável para o próximo. Cândido refere-se às pessoas que afirmam que o próximo tem direito a bens básicos, como moradia, comida, instrução, saúde, etc., mas isso está longe de ser o ideal. Todos nós somos seres culturais, independente do grau de instrução ou preferência cultural. No Brasil, o privilégio de ler clássicos seria de uma pequena “classe”, a nomeada intelectual, mas será que os setores culturais não poderiam incluir TODOS no mesmo elenco? Seria se começássemos a investir em políticas de leitura. Seria se, compreendêssemos que a Literatura é uma necessidade, pois é manifestação universal do homem em todos os tempos e humaniza, em todos os sentidos, porque faz viver.
Outra abordagem do professor Cândido, que merece destaque em relação à Literatura, é a de defender que a literatura erudita deixe de ser privilégio de pequenos grupos, mas para isso acontecer é necessário, que a organização da sociedade seja realizada de maneira a garantir uma distribuição justa dos bens. Para que esse “ideal” aconteça de fato, os produtos literários deverão circular sem barreiras; no caso do Brasil será preciso vencer o déficit da escolarização básica para criar na sociedade o hábito da leitura.
Outro ponto importante do artigo de Antônio Cândido é o de defender a fruição cultural em todos os níveis. Isso seria possível se nossa sociedade não segregasse as camadas sociais com pouca escolarização, impedindo a difusão e a circulação de produtos culturais eruditos, confinando o povo a apenas uma parte da cultura, a nomeada POPULAR. “Cultura popular e cultura erudita nunca deveriam ser separadas, como se a sociedade fosse dividida em esferas que não se comunicassem. Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável”. (Cândido: 1988, p.191).
Para comemorar o Dia Mundial do Livro (23 de abril) é necessário fazer conexão com o Dia da Mentira, ideia inicial desse texto. É mentira afirmar que é impossível a fruição da cultura erudita com a popular no Brasil. É mentira afirmar que pessoas menos esclarecidas são incapazes de serem atraídas por sinfonias ou leituras de clássicos.  É mentira também afirmar que a cultura tem que ter investimento mais focado em shows, carnaval ou festas populares, porque o povo (a maioria) só gosta disso. É mais cômodo trabalhar dessa forma: separando a cultura popular da erudita, por preguiça, falta de informação e de instrução.
E os livros? Os livros são componentes importantes da cultura (livros de folclore, de lendas, de sagas; epopeias, clássicos, modernos ou pós-modernos).  Os livros são e continuarão sendo fonte rentável, inesgotável e eficiente para o saber, em todos os tempos.  Seu valor é indiscutível para a humanização. Lutem pelo acesso aos livros, pois eles nos leva ao conhecimento, à alteridade, ao prazer, à instrução, à sabedoria, a viver outras vidas e experiências, e a alargar nossos horizontes...


* Mestranda em Literatura, cultura e sociedade pela UFV
Membro Efetivo da AMULMIG
 deiadonadon@yahoo.com.br
deialeal@jornalaldrava.com.br

A confissão de Guimarães e Acontecências paranormais

Texto 02
Acontecências paranormais

Cesar Vanucci *


 “Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”
(Guimarães Rosa, em artigo escrito há 40 anos)


R
estou cabalmente provada, no depoimento do próprio autor aqui reproduzido, a incomum capacidade de Guimarães Rosa de poder atingir, com prodigiosa freqüência, latitudes superiores na captação das energias sutís que compõem este nosso universo povoado de inexplicabilidades. Energias essas ainda indecifráveis do ponto de vista do conhecimento científico consolidado.

Depois de anotar que, por formação ou índole costumava opor “escrúpulo crítico a fenômenos paranormais”, o escritor viu-se obrigado a reconhecer que sua vida, sempre e desde cedo, “se teceu de sutil gênero de fatos.” E que fatos tão singulares, “entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza”, são mesmo esses, afinal de contas? A resposta chega de imprevisto, fulminante, de forma a esmorecer costumeiras dúvidas suscitadas pela proverbial dificuldade humana em avaliar situações consideradas fantásticas, misteriosas ou enigmáticas: “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.”
Foi, por exemplo, num sonho premonitório, “duas noites repetido”, que a estória de “Buriti”, constante de “Noites do Sertão”, tomou forma em 1948. É o que atesta, com franqueza e sem rebuços, o autor de “Tutaméia”. Os estudiosos dos fenômenos abarcados pela Parapsicologia não hesitarão em apontar, nessa revelação, a faculdade de precognição entre os dons singulares do escritor. E qual classificação atribuir ao relato de Guimarães concernente a “Conversa de bois”, do enredo de “Sagarana”? “(...) Recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerava como definitiva ao ir dormir na sexta”, sublinha o autor. O ato de haver “recebido” dá o que pensar. Esse mesmo processo intrigante de “recepção”, dir-se-á (à falta de definição melhor) mágica, ocorre em muitos outros momentos da fecunda trajetória literária de Guimarães, segundo informações dele próprio. É assim em “A terceira margem do rio” (“Primeiras estórias”). Assim, igualmente, em “Campo Geral”. (“Miguelim e Manuelzão”). Uma das estórias brotou na rua, “em inspiração pronta e brusca”, vinda “de fora”. A outra “foi caindo já feita no papel” (...) “e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e a ligação de suas partes”. Será que a hipótese da “escrita automática”, também conhecida por psicografia, pode ser encaixada como tentativa de explicação? Ou o que aconteceu guardará sinais de similitude, de alguma maneira, com um “esclarecimento” que me foi passado, de certa feita, pelo consagrado autor espanhol J.J.Benitez? Perguntei-lhe em quais fontes se inspirara para o impressionante relato sobre a vida de Cristo que compõe a saga “Operação Cavalo de Tróia.” Pelo que deduzi da resposta, tudo provinha de um manancial de conhecimentos existente num plano superior. As informações teriam sido obtidas por percepção extra-sensorial, um tipo de “canalização” ainda não devidamente codificado. Guimarães Rosa parece querer dizer coisa parecida em seu artigo, quando fala de “Grande Sertão, Veredas”: “(...) forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi (o livro) ditado, sustentado e protegido – por forças ou correntes muito estranhas”.

A precognição ganha sentido, mais uma vez, no caso de um outro romance que “faz anos, comecei e interrompi” (“A fazedora de velas”). A doença que veio a acometer o escritor, bem como a visualização antecipada que teve do interior de uma casa visitada, anos depois, “por acaso”, que haviam sido projetadas no romance, causando-lhe “choque e susto”, são elementos a mais a considerar na análise das fantásticas situações, de características iniludivelmente paranormais, vividas pelo genial Guimarães Rosa.

Não há como negar: as instigantes revelações acerca da paranormalidade do escritor, ouvidas de sua própria boca, reclamam atenções maiores dos estudiosos de sua fabulosa obra.

Na sequência, cartas e receitas inéditas de Guimarães Rosa.


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TEXTO 01

A confissão de Guimarães



“Sua obra suscita mais tentativas de decifração
 do que a de qualquer outro escritor.”
(Paulo Rónai)

C
C

onforme já contado, Guimarães Rosa confessou, 40 anos atrás, em artigo no “Estado de Minas”, reavivado pelo escritor Luiz de Paula Ferreira, seu entranhado envolvimento com fenômenos ligados às percepções extra-sensoriais. Do instigante texto ressalta claro que sua obra literária – obra que “suscita mais tentativas de decifração do que a de qualquer outro escritor”, segundo Paulo Rónai – foi marcada, desde sempre, por intuições e impulsos mágicos, de nítida configuração parapsicológica, inexplicáveis à luz do conhecimento consolidado,.

Mas já é tempo de satisfazer a curiosidade do leitor, a respeito da confissão do autor de “Sagarana”, falando de seus dons paranormais. O artigo tem por título “Vida – arte – e mais?”.

“Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em principio rechace a experimentação metapsiquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias.

No plano da arte e criação – já de si em boa parte suplinar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações. Talvez seja correto eu confessar como tem sido que as estórias que apanho diferem entre si no modo de surgir. À Buriti (Noites do sertão), por exemplo, quase inteira, “assisti”, em 1948, num sonho duas noites repetido. Conversa de Bois (Sagarana), recebi-a, em amanhecer de sábado, substuindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerara como definitiva ao ir dormir na sexta. A Terceira Margem do Rio (Primeiras estórias) veio-me, na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para “pegá-la”, como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. Campo Geral (Miguilim e Manuelzão) foi caindo já feita no papel, quando em brincava com a máquina, por preguiça e receio de começar de fato um conto, para o qual só soubesse um menino morador à borda da mata e duas ou três caçadas de tamanduás e tatus; entretanto, logo me moveu e apertou, e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e ligação de suas partes. O tema de O Recado do Morro (No Urubuquá, no Pinhém) se formou aos poucos, em 1950, no estrangeiro, avançado somente quando a saudade me obrigava, talvez também sob razoável ação do vinho ou do conhaque. Quanto ao Grande sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido – por forças ou corrente muito estranhas.

Aqui, porém, o caso é um romance, que faz anos comecei e interrompi. (Seu título: A Fazedora de Velas). Decorreria, em fins do século passado, em antiga cidade de Minas Gerais, e para ele fora já ajuntada e meditada à massa de elementos, o teor curtido na idéia, riscado o enredo em gráfico. Ia ter principalmente, cenário interno, num sobrado, do qual – inventado fazendo realidade – cheguei a conhecer todo canto e palmo. Contava-se na primeira pessoa, por um solitário, sofrido, vivido, ensinado. Mas foi acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A personagem, ainda enferma, falava de uma sua doença grave. Inconjurável, quase cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me, de sério medo. Larguei essa ficção de lado. O que do livro havia, e o que se referia, trouxou-se em gaveta. Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses, ano-e-meio, ano – adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto, a do Narrador! Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam. Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa – onde a sala seria, sem toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara, e decorara, visualizado freqüentando-o por oficio. Sei quais foram, céus, meu choque e susto. Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”

Procuro interpretar a fala de Guimarães na sequência.


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)